Sim, existe uma associação que merece atenção, mas ela precisa ser interpretada com cuidado. Estudos observacionais mostram que mulheres com endometriose podem apresentar com maior frequência alguns fatores de risco e eventos cardiovasculares. Isso não significa que a endometriose, sozinha, determine uma doença no coração nem que toda mulher com o diagnóstico precise fazer uma bateria de exames.
O ponto mais útil é outro: o histórico ginecológico pode fazer parte de uma avaliação cardiovascular mais completa.
O que a endometriose tem a ver com o coração?
A endometriose é uma condição inflamatória crônica. A inflamação, por sua vez, também participa de processos ligados à aterosclerose e ao funcionamento dos vasos. Além disso, mulheres com endometriose podem reunir outros elementos que influenciam o risco cardiovascular, como pressão alta, alterações do colesterol, sedentarismo, dor crônica, piora do sono e mudanças metabólicas.
Esses fatores podem se somar. Porém, somar fatores não é o mesmo que demonstrar uma causa direta. É por isso que o tema deve ser tratado como associação e oportunidade de prevenção, não como sentença.
O que os estudos observaram?
O posicionamento brasileiro de 2025 sobre saúde cardiometabólica da mulher descreve associação entre endometriose e maior frequência de hipertensão, perfil de colesterol mais desfavorável e eventos cardiovasculares em algumas populações.
Os resultados variam entre os estudos. Idade, tempo de doença, gravidade, cirurgias, tipo de tratamento, hábitos e presença de outros fatores de risco podem mudar o cenário. Um percentual encontrado em uma pesquisa não deve ser usado para prever o futuro de uma pessoa.
Inflamação explica tudo?
Não. A inflamação é uma hipótese importante, mas não é a única peça.
Também podem participar:
- alterações na função do endotélio, que reveste os vasos;
- pressão arterial elevada;
- colesterol e triglicérides alterados;
- diabetes ou resistência à insulina;
- tabagismo;
- baixa atividade física;
- sono ruim e estresse persistente;
- efeitos metabólicos de tratamentos em situações específicas;
- retirada cirúrgica precoce dos ovários em algumas mulheres.
Cada um desses pontos precisa ser analisado no contexto. Ter endometriose não significa ter todos eles.
O tratamento da endometriose faz mal ao coração?
Não existe uma resposta única. O impacto depende do medicamento, da dose, da duração, da idade, do histórico de trombose, da pressão, do perfil metabólico e de outros riscos pessoais.
Tratamentos hormonais podem ser fundamentais para controlar sintomas e compor o manejo da doença. Portanto, não devem ser interrompidos por medo nem por leitura isolada de um conteúdo na internet. Quando há dúvida, a decisão deve ser compartilhada entre ginecologista e os profissionais que acompanham a saúde cardiovascular.
O mesmo cuidado vale para cirurgias. Uma operação necessária não deve ser julgada apenas pelo risco cardiovascular futuro, mas esse aspecto pode entrar na conversa, especialmente quando se discute retirada dos ovários antes da menopausa natural.
Toda mulher com endometriose precisa consultar um cardiologista?
Não de forma automática. Para muitas mulheres, o acompanhamento inicial pode começar na consulta de rotina, com revisão de pressão arterial, peso, circunferência abdominal quando apropriado, colesterol, glicemia, hábitos e histórico familiar.
Uma avaliação cardiológica pode ser particularmente útil quando existem:
- pressão alta, diabetes ou colesterol alterado;
- tabagismo;
- histórico familiar de infarto ou AVC precoce;
- sintomas como dor no peito, falta de ar aos esforços, palpitações ou desmaio;
- histórico de trombose;
- cirurgia com menopausa precoce;
- vários fatores de risco combinados;
- dúvida sobre segurança cardiovascular de um tratamento.
O objetivo não é procurar doença a qualquer custo. É entender o risco real e definir prioridades.
Quais exames podem ser necessários?
Não existe um pacote de exames obrigatório para endometriose. A avaliação costuma começar pela conversa clínica, exame físico, pressão arterial e exames laboratoriais básicos quando indicados.
Eletrocardiograma, ecocardiograma, teste ergométrico ou exames de imagem das coronárias só fazem sentido quando há uma pergunta clínica específica. Pedir exames sem indicação pode gerar achados incidentais, ansiedade e novos procedimentos sem benefício claro.
O que ajuda a proteger o coração?
As medidas mais úteis são as mesmas que sustentam a prevenção cardiovascular de forma geral:
- não fumar;
- acompanhar pressão, glicemia e colesterol;
- manter atividade física possível e progressiva, respeitando dor e limitações;
- buscar alimentação equilibrada e sustentável;
- cuidar do sono;
- discutir peso e composição corporal sem culpa;
- tratar a endometriose com acompanhamento regular;
- revisar o risco cardiovascular ao longo da vida.
Dor crônica pode dificultar exercício, sono e alimentação. Nesses casos, metas menores e adaptadas costumam ser mais realistas do que recomendações rígidas.
Quando procurar atendimento com urgência?
Dor no peito intensa ou recente, falta de ar importante, desmaio, fraqueza súbita em um lado do corpo, alteração da fala ou palpitação acompanhada de mal-estar exigem avaliação rápida. Esses sinais não devem ser atribuídos automaticamente à ansiedade, à endometriose ou ao tratamento hormonal.
Conclusão
Endometriose e saúde cardiovascular podem estar relacionadas, mas a associação não define o destino de nenhuma mulher. O melhor caminho é usar essa informação para olhar com mais cuidado para pressão, colesterol, glicemia, hábitos, sintomas e histórico familiar.
Se você tem endometriose e reúne outros fatores de risco, uma avaliação individual ajuda a transformar preocupação em um plano de prevenção coerente.
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Perguntas frequentes
Endometriose causa infarto?
Não é correto afirmar uma causa direta. Estudos observam associação com maior risco em algumas populações, mas o risco individual depende de vários fatores.
Preciso fazer exames do coração todos os anos?
Não existe recomendação universal. A frequência e o tipo de exame dependem de sintomas, idade, fatores de risco e avaliação clínica.
Posso parar o tratamento hormonal para proteger o coração?
Não por conta própria. Benefícios e riscos variam conforme o tratamento e o perfil da paciente. A decisão deve ser discutida com a equipe assistente.
Endometriose pode aumentar a pressão?
Alguns estudos encontraram maior frequência de hipertensão entre mulheres com endometriose. Isso reforça a importância de medir a pressão corretamente, mas não significa que a doença sempre provoque hipertensão.
Quem deve ter atenção redobrada?
Mulheres com múltiplos fatores de risco, histórico de trombose, menopausa precoce, sintomas cardiovasculares ou forte histórico familiar merecem avaliação individual mais cuidadosa.
Referência
Sociedade Brasileira de Cardiologia. Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher – 2025.