Avaliação cardiológica antes da cirurgia: quem precisa?

Nem toda pessoa precisa consultar um cardiologista ou fazer uma bateria de exames antes de uma cirurgia. A avaliação cardiovascular é mais útil quando existe uma combinação de sintomas, doença conhecida, baixa capacidade funcional ou operação com risco relevante.

O objetivo não é fornecer uma garantia de que nada acontecerá. É identificar problemas que podem mudar o momento da cirurgia, o tipo de monitorização ou o tratamento antes, durante e depois do procedimento.

O que determina o risco?

Quatro pontos ajudam a organizar a avaliação:

1. A cirurgia é urgente ou eletiva? 2. Qual é o risco cardiovascular do procedimento? 3. A pessoa tem sintomas ou doença cardíaca ativa? 4. Qual é sua capacidade funcional e seu conjunto de doenças?

Uma cirurgia pequena em pessoa sem sintomas é diferente de uma operação de grande porte em alguém com insuficiência cardíaca ou dor no peito recente.

Quem costuma se beneficiar de avaliação cardiológica?

Pode haver benefício quando existe:

  • dor no peito ou falta de ar sem explicação;
  • desmaio;
  • insuficiência cardíaca;
  • arritmia relevante;
  • doença coronariana conhecida;
  • doença valvar moderada ou importante;
  • histórico de infarto, angioplastia ou cirurgia cardíaca;
  • baixa capacidade para esforços;
  • múltiplos fatores de risco em cirurgia intermediária ou de alto risco.

A idade, sozinha, não decide tudo. Ela é analisada junto com estado funcional e doenças associadas.

O que é capacidade funcional?

É uma estimativa do que a pessoa consegue fazer no cotidiano. Subir escadas, caminhar em ritmo adequado e realizar atividades sem sintomas oferecem informações úteis.

Baixa capacidade pode aumentar incerteza, mas também pode resultar de problemas ortopédicos, pulmonares ou fragilidade. A causa precisa ser considerada.

Todo mundo precisa de eletrocardiograma?

Não. O ECG pode ser indicado diante de doença cardiovascular, sintomas, diabetes, idade e tipo de cirurgia, conforme a avaliação.

Fazer ECG de rotina em pessoas jovens, assintomáticas e submetidas a procedimentos de baixo risco pode encontrar alterações sem impacto e gerar atrasos desnecessários.

E o ecocardiograma?

O ecocardiograma não é exame obrigatório antes de cirurgia. Ele é útil quando há suspeita ou piora de insuficiência cardíaca, doença valvar relevante ou outra pergunta estrutural.

Em pessoa assintomática e estável, repetir ecocardiograma apenas porque haverá cirurgia pode não trazer benefício.

Quando um teste de esforço é necessário?

Teste ergométrico, ecocardiograma de estresse ou outro teste de isquemia pode ser considerado quando a capacidade funcional é baixa ou desconhecida, o risco da cirurgia é relevante e o resultado realmente poderá mudar a conduta.

Se o resultado não mudaria o procedimento nem o tratamento, o exame pode apenas atrasar a cirurgia.

Preciso fazer cateterismo antes?

Raramente por causa da cirurgia isoladamente. A investigação invasiva segue as mesmas indicações clínicas usadas fora do contexto cirúrgico.

Encontrar doença coronariana não significa que uma angioplastia antes da operação sempre reduzirá o risco. A estratégia depende de sintomas, anatomia, urgência e necessidade do procedimento.

O que fazer com os medicamentos?

Não suspenda anticoagulante, antiplaquetário, betabloqueador, remédio de pressão ou diabetes por conta própria.

Alguns medicamentos precisam ser mantidos, outros pausados e outros ajustados. A decisão depende do risco de sangramento, trombose, tipo de cirurgia, função renal e anestesia. O plano deve ser combinado entre cirurgião, anestesista e médicos que acompanham as doenças crônicas.

O que levar para a consulta?

Leve:

  • nome e data da cirurgia;
  • relatório do cirurgião e tipo de anestesia quando disponível;
  • lista completa de medicamentos e suplementos;
  • exames cardíacos anteriores;
  • histórico de infarto, AVC, trombose, sangramento ou reação anestésica;
  • descrição da sua capacidade para esforços;
  • sintomas atuais.

Quanto mais clara a pergunta, menor a chance de exames desnecessários.

A cirurgia pode precisar ser adiada?

Em cirurgia eletiva, condições instáveis podem exigir investigação ou tratamento antes, como síndrome coronariana aguda, insuficiência cardíaca descompensada, arritmia grave ou doença valvar importante sintomática.

Em situações urgentes, a equipe equilibra o risco de esperar com o risco cardiovascular e organiza monitorização e tratamento. Não se deve atrasar uma emergência apenas para completar um checklist eletivo.

O laudo “risco cirúrgico” garante segurança?

Não. Todo procedimento tem risco. A avaliação estima probabilidade, identifica fatores modificáveis e orienta cuidados.

O resultado deve comunicar condições ativas, capacidade funcional, risco estimado e recomendações práticas, sem prometer “liberação total”.

Conclusão

A avaliação cardiológica antes de cirurgia deve ser direcionada. Sintomas, doença conhecida, capacidade funcional e risco do procedimento determinam se consulta e exames poderão mudar a conduta.

Conteúdos relacionados

Perguntas frequentes

Toda cirurgia exige cardiologista?

Não. Procedimentos de baixo risco em pessoas assintomáticas frequentemente não precisam de avaliação especializada.

Preciso repetir exames antigos?

Depende de mudança clínica, tempo, qualidade e de como o resultado será usado.

Posso parar o anticoagulante?

Não por conta própria. O plano precisa equilibrar sangramento e trombose.

Ecocardiograma normal zera o risco?

Não. Ele avalia estrutura e função, mas o risco perioperatório envolve vários fatores.

Avaliação cardiológica pode adiar a cirurgia?

Pode quando identifica condição instável em procedimento eletivo. O objetivo é reduzir risco, não criar atraso sem benefício.

Referência

Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória – 2024.

Blog | Dr. Fábio Lordelo

Sobre | Dr. Fábio Lordelo

Sou formado pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Ilhéus- Bahia), que me ensinou os princípios da Medicina de Família e Comunidade e a valorização do ser humano como um todo: do aspecto biológico ao social. Durante a graduação, tive envolvimento com projetos de Extensão na comunidade, que fortaleceram minha paixão por cuidar, educar e ajudar a mudar realidades.

Saiba mais

Especialidade | Dr. Fábio Lordelo

O cardiologista é o médico que entende do coração. Voltada para o estudo, prevenção e tratamento das doenças do coração, a Cardiologia trata de doenças como Insuficiência Cardíaca, Miocardite, Arritmias, entre outras que atingem milhares de pessoas no mundo todo.

Saiba mais

Exames | Dr. Fábio Lordelo

As doenças cardiovasculares são a causa número 1 de morte em todo o mundo. Essas doenças do coração e dos vasos sanguíneos, incluem doença coronariana, doença cerebrovascular, doença cardíaca reumática e outras condições, são responsáveis por perdas prematuras de pessoas com menos de 70 anos de idade.

Saiba mais